O FreeRTOS agora é da Amazon!

- por Sergio Prado

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Sim, é isso mesmo! O FreeRTOS agora é um projeto gerenciado e controlado pela Amazon, fazendo parte da Amazon Web Services (AWS), uma plataforma de serviços de computação em nuvem.

Criado em meados de 2003 por Richard Barry e com quase 15 anos de vida no momento em que escrevo este artigo, o FreeRTOS se tornou um dos RTOS’s de código-aberto mais utilizados no mundo.

Na semana passada, a Amazon divulgou uma notícia na conferência AWS re:Invent que nos pegou de surpresa, o lançamento do Amazon FreeRTOS (a:FreeRTOS).

O Amazon FreeRTOS é um sistema operacional com foco em IoT e conectividade com os serviços de computação em nuvem da Amazon. Ele é composto pelo FreeRTOS (kernel) e por diversas bibliotecas de conectividade e segurança (mqtt, criptografia, tcp/ip, pkcs11, tls, atualizações OTA, etc). No momento em que escrevo este artigo, possui suporte às seguintes plataformas de hardware: LPC54018 IoT Module da NXP, STM32L475 Discovery da ST e CC3220 Launchpad da TI.

Mas esta notícia vai muito além de divulgar um sistema operacional que integra um kernel de tempo real (FreeRTOS) com bibliotecas de conectividade e segurança.

Até então, o FreeRTOS era mantido pelo Richard Barry e sua empresa Real Time Engineers. A partir de agora, o FreeRTOS é um projeto mantido pela Amazon! O Richard Barry, criador do projeto, foi contratado pela Amazon e está lá desde o ano passado trabalhando no desenvolvimento do FreeRTOS (kernel) e do Amazon FreeRTOS.

A primeira pergunta que pode ser feita é: porque o FreeRTOS, dentre tantas outras opções comerciais ou de código-aberto existentes? Difícil saber o motivo exato, mas acredito que tenha sido um conjunto de fatores como um código simples, funcional e portável, a qualidade do código (o FreeRTOS segue quase todo o padrão MISRA), sua popularidade e base de usuários, além de ser um projeto de código aberto sem envolvimento direto da comunidade no desenvolvimento (uma preocupação grande do projeto é aceitar contribuições da comunidade que possam infringir alguma propriedade intelectual).

Outra pergunta que você pode fazer é: o que muda para quem já usa ou pretende usar o FreeRTOS? A minha resposta é: muda um pouco. E para melhor.

Pra começar, a licença foi alterada de uma versão modificada da GPLv2 para a licença MIT. A licença MIT é mais permissiva, e possibilita por exemplo alterar o próprio kernel sem precisar liberar o código-fonte (isso não era permitido no modelo de licença anterior).

Sob os cuidados da Amazon, o projeto deve evoluir mais rapidamente. Com uma equipe maior, acredito que veremos a implementação de mais funcionalidades e a liberação de novas versões com mais frequência. O próprio Richard Barry já relatou algumas vezes como era difícil manter, com uma equipe pequena e baixo orçamento, um projeto de código-aberto com a qualidade e a base de usuários do FreeRTOS. Isso deve mudar. Só espero que o projeto mantenha sua filosofia de ser simples, eficiente e portável, e que o foco da Amazon não seja apenas soluções de IoT.

Falando em novas funcionalidades, junto com o anúncio do Amazon FreeRTOS saiu a versão 10.0.0 do kernel com diversas alterações, incluindo duas novas APIs chamadas Stream Buffers e Message Buffers, que implementam um mecanismo de comunicação mais otimizado quando comparado à API de queues. Pretendo detalhar em um outro artigo e com mais detalhes estas e outras alterações realizadas na versão 10.0.0 do FreeRTOS.

O fato da Amazon não estar associada a nenhum fabricante de hardware nos dá uma certa garantia da continuidade do suporte a múltiplas plataformas de hardware no FreeRTOS. E o melhor de tudo é que não existe nenhuma obrigatoriedade de uso dos serviços da Amazon para utilizar o FreeRTOS. Continuamos tendo acesso a um kernel de tempo real de ótima qualidade, agora com a força de mercado da Amazon para crescer em termos de funcionalidades e suporte a hardware.

Uma entrevista com o Richard Barry está disponível no blog da AWS, e o site oficial do projeto tem mais informações sobre o Amazon FreeRTOS.

A Amazon criou um site chamado Amazon FreeRTOS console para que possamos baixar o código-fonte do Amazon FreeRTOS para os dispositivos certificados, e existe um programa de certificação chamado Hardware Qualification Program para que qualquer empresa possa certificar seu hardware para trabalhar com o Amazon FreeRTOS.

O site do FreeRTOS continua o mesmo e pelo menos por enquanto o código-fonte continua hospedado no SourceForge, apesar de ter um fork do projeto no GitHub da AWS.

Como usuário e desenvolvedor de soluções com o FreeRTOS, eu gostei bastante da notícia, principalmente sabendo que o Richard Barry continua sendo o responsável pelo projeto. E você, o que achou?

Um abraço!

Sergio Prado

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