LinuxCon Brasil 2010

Em 06/09/2010, em Eventos, por Sergio Prado

Na sem­ana pas­sada estive na Lin­ux­Con Brasil 2010, real­izada no Sher­a­ton WTC Hotel em São Paulo nos dias 31/08 e 01/09. Foram dois dias de muitas palestras com algu­mas das prin­ci­pais per­son­al­i­dades do uni­verso Linux, incluindo seu cri­ador e man­tene­dor Linus Torvalds.

A orga­ni­za­ção do evento pode­ria ter sido mel­hor. Um pouco de con­fusão na entrada, algu­mas pes­soas pre­cis­aram entrar no con­gresso sem o cre­den­ci­a­mento para que não perdessem o keynote de aber­tura do evento. Na pro­gra­mação do evento havia um “Café da manhã con­ti­nen­tal”, mas durante todo o evento eles servi­ram ape­nas café e água.

Tirando estes detal­hes, e con­siderando que este foi o primeiro Lin­ux­Con no Brasil, o evento foi bom, com palestras de alto nível, além da pos­si­bil­i­dade de inter­ação com alguns dos prin­ci­pais desen­volve­dores do ker­nel do Linux.

PRIMEIRO DIA

O evento começou com o keynote de Jim Zem­lin, dire­tor exec­u­tivo da Linux Foun­da­tion, com um relato do pas­sado, pre­sente e futuro do Linux. A visão de “Linux is Every­where” foi demon­strada com exem­p­los da uti­liza­ção do Linux ao redor do mundo: sis­temas finan­ceiros como bol­sas de val­ores, gov­er­nos como o do Brasil e da França, con­t­role de tráfego aéreo, sis­temas embar­ca­dos, mobile, e por aí vai. O porque desta expan­são do Linux tam­bém foi um tema recor­rente no evento, e o keynote do Jim apre­sen­tou um cenário bem interessante:

  1. Inter­net of things: o Linux facilita o tra­balho de conec­tar tudo à inter­net (embed­ded, mobile, com­puta­dores pes­soais, servi­dores, super-computadores).

  2. Econo­mia de tempo ($$): Esta tudo pronto e disponível, sis­tema opera­cional e stack TCP/IP. O que é mel­hor quando se tem um time-to-market de 3 ou 4 meses?

  3. Mudança na com­putação pes­soal: Muitos já pas­sam a maior parte do dia desen­vol­vendo seus tra­bal­hos em net­books e smart­phones. Todas as infor­mações estão na nuvem (inter­net). O Linux esta por trás disso, tanto no cliente quanto no servidor.

  4. Pro­du­tos -> Serviços: O mer­cado está evoluindo para um mod­elo de venda de serviços. Tec­nolo­gias aber­tas serão essen­ci­ais nesta evolução.

Jim encer­rou seu keynote com uma pre­visão inter­es­sante. Segundo ele, em pouco tempo o hard­ware será gra­tu­ito, e as empre­sas estarão focadas em serviços. Veja aqui por exem­plo o que a T-Mobile esta fazendo nos EUA. E no fim, tam­bém já garan­tiu a Lin­ux­con Brasil 2011!

O painel de dis­cussão do Linux tam­bém foi bem inter­es­sante, com par­tic­i­pação do Linus Tor­valds e do man­tene­dor do ker­nel Andrew Mor­ton. O Linus me pare­ceu uma pes­soa bem mais equi­li­brada e pon­der­ada do que aquele que vejo nas lis­tas de dis­cussão do ker­nel. E isso me sur­preen­deu pos­i­ti­va­mente. Ele se mostrou con­victo e sin­cero tam­bém. Quando ques­tion­a­dos sobre suas moti­vações para o desen­volvi­mento do ker­nel, Andrew respon­deu que se sente útil aju­dando out­ras pes­soas, enquanto Linus disse que faz isso para ele mesmo, porque acha diver­tido. “I do not care about other peo­ple. I am self­ish. I do it for fun.”. Mas a forma como ele falou arran­cou algu­mas gar­gal­hadas do público. Na prática, acred­ito que eles quis­eram dizer a mesma coisa.

Além disso, muitos out­ros assun­tos foram dis­cu­ti­dos. Linus disse que seu inter­esse ini­cial era ape­nas em com­puta­dores pes­soais e que não esper­ava este cresci­mento do Linux. Defendeu sua posição de um ker­nel monolítico ao invés do micro ker­nel (assunto recor­rente em lis­tas de dis­cussão do ker­nel). Se posi­cio­nou tam­bém com relação às várias licenças de soft­ware, dizendo que não existe uma licença certa ou errada, são ape­nas escol­has, e que o tempo irá dizer qual delas é a mais correta.

Nas palestras que assisti à tarde, destaco “O futuro é open-source”, de James Bot­tom­ley da Nov­ell. A excen­t­ri­ci­dade em pes­soa, com um sotaque britânico car­regado e uma gra­vata bor­bo­leta rosa, falou com pro­priedade sobre os impactos do código open-source para empre­sas, ger­entes e desenvolvedores.

SEGUNDO DIA

O segundo dia começou com um painel do Ker­nel com os desen­volve­dores James Bot­tom­ley, Christoph Hell­wig, Ted Ts’o e do Thomas Gleixner mod­er­a­dos por Jon Cor­bet do Linux Weekly News. Foi um bate-papo bem dinâmico, com muita par­tic­i­pação do público. Achei inter­es­sante quando per­gun­taram o que dev­e­ria mel­ho­rar no ker­nel, e a maio­ria deles con­cor­dou que todo o layer TTY dev­e­ria ser remod­e­lado, já que foram basea­dos em equipa­men­tos de 40 anos atrás. Deram tam­bém algu­mas dicas para quem quer se tornar um desen­volve­dor do ker­nel: lin­guagem C, lóg­ica, pen­sa­mento analítico e inter­facea­mento com o hardware.

O keynote da Jane Sil­ber, CEO da Canon­i­cal, mostrou o quanto o pes­soal por trás do Ubuntu está inter­es­sado em atrair mais usuários através de pesquisas sobre a exper­iên­cia do usuário, e tam­bém da importân­cia de man­ter o release de 6 meses e con­tin­uar sem­pre ino­vando. No final da palestra ela foi aplau­dida de pé por todos os pre­sentes na conferência.

O último keynote foi de Ted Ts’o do Google, man­tene­dor do layer de sis­temas de arquivo do ker­nel. Ele falou sobre os diver­sos sis­temas de arquivo exis­tentes para aten­der difer­entes deman­das como embedded/mobile (jffs2, ubifs, squashfs, etc), desk­top (ext3, ext4, xfs, btrfs, etc) e enter­prise (nfs, smbfs, etc). Citou tam­bém uma tec­nolo­gia de memória muito inter­es­sante, que eu ainda não con­hecia, a Phase Change Mem­ory. É uma memória não volátil, de grande capaci­dade e boa dura­bil­i­dade. É uma união do que tem de bom nos HD’s com as memórias SSD e RAM. Pode­ria sub­sti­tuir o HD ou flash SSD. Neste caso, tudo ficaria em RAM. Mas deve levar ainda no mín­imo uns 5 anos para chegar ao mercado.

À tarde, vale o destaque para duas palestras. O Marcelo Moreno, da PUC-Rio, falou sobre o mid­dle­ware Ginga para TVs dig­i­tais. Mostrou exem­p­los de inter­ação do usuário com apli­cações para TV e os prin­ci­pais desafios como sin­cronizar vídeo e apli­cação, adap­tação do con­teúdo ao público, tempo de resposta na inter­ação, con­t­role remoto como inter­face de entrada e o fato de ser uma exper­iên­cia cole­tiva. É muito bom ver um pro­jeto deste porte ser desen­volvido em nosso país.

Para finalizar, o sem­pre pre­sente e bar­budo John “mad­dog” Hall esteve lá para apre­sen­tar seu Project Cauã. É um pro­jeto social com o obje­tivo de criar mil­hões de empre­gos na América Latina. É um pro­jeto para tornar o com­puta­dor mais amigável para o usuário final, e trans­for­mar admin­istradores de rede em empreende­dores, tudo isso através de um mod­elo de com­putação baseado em thin clients e server computing.

É uma visão rev­olu­cionária, para alguns até utópica. Mas é no mín­imo inter­es­sante ver como o John e a comu­nidade Linux em geral estão vendo o papel do Brasil nesta história.

Que venha a Lin­ux­Con Brasil 2011!

Um abraço,

Ser­gio Prado

Obs: Este post foi orig­i­nal­mente escrito para o blog da Vex, e seu con­teúdo foi repli­cado aqui no meu blog pessoal.

VN:F [1.9.17_1161]
Rat­ing: 9.0/10 (1 vote cast)
Lin­ux­Con Brasil 2010, 9.0 out of 10 based on 1 rating

Posts rela­ciona­dos:

  1. Lin­ux­con 2010
Tags: